Idos de 1970:
As janelas de madeira são fechadas e trancadas uma a uma por mãos apressadas. O crepúsculo vespertino era o sinalizador daquela tarefa rotineira, e nada mudava, independentemente do dia da semana.
-Mesmo eu querendo brincar mais um pouquinho bem pequeno, a mãe não deixa... Todo final de dia ela diz que logo irá anoitecer e é preciso se recolher... Mas eu não me incomodo com a claridade da lua e ela não entende isso... Reclamava Antonio ao seu melhor amigo brinquedo, o cavalo de tábua.
Pouco depois de fechar as janelas, era a vez de a porta ser trancada, o fogão a lenha alimentado e o lampião aceso. Como o lampião era o principal foco de luz, permanecia na cozinha para iluminar o preparo do jantar e as faces enquanto conversavam e descansavam. Nos demais cômodos a luz que penetrava era a de velas, cuidadosamente conduzidas por mãos adultas.
Após o dormir prolongado e sossegado, o crepúsculo matutino era o despertador daquele tempo; o crepúsculo acompanhado dos cantos de aves, domésticas ou não.
-Cócóricó... Bem-te-vi... Piuuuu-piuuuu... Pipipiii-pipipiii...
2008:
O crepúsculo vespertino aciona automaticamente todas as lâmpadas dos postes espalhados pela cidade. As ruas continuam movimentadíssimas e num dos carros que seguem o caótico trânsito está uma mãe apressada para apanhar o filho na escola. Com os nervos à flor da pele e o pensamento nos muitos afazeres que lhe acompanharão noite adentro, aquela mãe prossegue rumo ao sorriso compensador.
-Mãe, a professora deu um trabalho bem grande para os pais ajudarem... E amanhã tem festa! É aniversário da Bruna... Vai ser no prédio dela... Eu vou, né mãe?! Falava sem pausa o pequeno André desde que entrou no carro.
O celular interrompeu a intenção de responder as perguntas do filho e a mãe desviou sua atenção ao telefonema do trabalho. Muitas frases depois, o carro era estacionado na garagem do prédio, a ligação encerrada e as atividades rotineiras retomadas. A casa inteira é iluminada por toques sutis nos interruptores. Um lanche rápido é preparado no microondas e as demais tarefas são executadas até altas horas.
- Pamparam-ramram... Pamparam-ramram... Na atualidade é o som do celular que interrompe o curto descansar nos dias pertencentes à tecnologia.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
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